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Da seca extrema à maior enchente da história: os desafios da população acreana diante das mudanças climáticas

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RIO BRANCO, Acre Por semanas, no segundo semestre de 2024, Rio Branco permaneceu encoberta por uma espessa cortina de fumaça. O sol, antes intenso no céu, tornou-se apenas um vulto alaranjado entre as nuvens de fuligem. O ar, carregado de poluentes, transformou a respiração em um desafio diário. 

Nesse cenário sufocante, Marcelo Diniz, cuidador pessoal em uma creche da capital, precisou adaptar sua rotina. Responsável por crianças de 2 a 4 anos, as atividades ao ar livre foram reduzidas. 

“Foi necessário o uso constante de máscaras, hidratação além do necessário e manter os ambientes fechados para evitar a entrada do ar poluído”, disse ele ao AcreOnline, ao lembrar dos efeitos imediatos da crise ambiental. 

Marcelo relata que tanto ele quanto pessoas próximas enfrentaram problemas respiratórios, tosse seca e irritação na garganta. “Apesar de tudo, sempre procuramos meios de minimizar os efeitos da seca e evitar que ela nos afetasse de uma forma mais grave”, afirmou. 

Em setembro de 2024, a qualidade do ar em Rio Branco registrou 549 µg/m³ (microgramas por metro cúbico), nível considerado ‘perigoso’ — o mais alto na escala da plataforma IQAir, empresa suíça especializada em monitoramento da qualidade do ar. Já os sensores do sistema Purple Air registraram 399.7 µg/m³ de material particulado, sendo que índices acima de 250 µg/m³ representam alerta de emergência em saúde pública. 

Fumaça toma conta da capital Rio Branco – Foto: Clemerson Ribeiro/Anac

Entre os municípios do estado, Rio Branco apresentou os piores índices de poluição do ar no período, seguido por Sena Madureira (138,25 µg/m³), Porto Acre (123,04 µg/m³), Manoel Urbano (107,86 µg/m³), Santa Rosa do Purus (105,05 µg/m³) e Cruzeiro do Sul (102,97 µg/m³). 

De acordo com o Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), vinculado à Secretaria do Meio Ambiente (Sema), o acúmulo de fumaça foi resultado do alto número de focos de calor na Amazônia, com maior concentração no sul do Amazonas. 

Para o jovem Izaías Souza, de 18 anos, a cidade tomada pela fumaça trouxe preocupação e dificuldade no dia a dia. “Foi um período complicado. Estudava na época e minha rotina ficou comprometida. Minha saúde também foi afetada”, relatou. 

Tanto a rede municipal quanto a estadual, suspenderam as aulas presenciais, adotando o ensino remoto. Ainda assim, a mudança não evitou impactos na saúde dos alunos. 

“Tive que usar máscara para ir à escola, mas não adiantou muito. Fiquei com falta de ar, cansaço e secreção nasal. Fui ao médico e o diagnóstico foi intoxicação pela fumaça, e precisei de medicação e nebulização três vezes ao dia”, contou Izaías. 

Souza reconhece que a mudança climática já é uma realidade. “Sempre ouvi falar disso na escola, mas nunca imaginei que presenciaria algo assim”, declarou. 

A coordenadora do Observatório Socioambiental do Acre, Daniela Dias, ressalta que as queimadas não são apenas uma questão ambiental, mas também um problema grave de saúde pública. 

“Todas as comunidades vêm sentindo o impacto disso, seja nas regiões mais sensíveis às enchentes ou nas áreas que enfrentam estiagens severas e temperaturas extremas”, observou Daniela. 

A fumaça das queimadas tem causado aumento significativo de doenças respiratórias, como bronquite e asma, além de outras complicações de saúde. Para Daniela, a crise da qualidade do ar precisa ser tratada com urgência pelas autoridades, pois afeta diretamente a população, especialmente crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios. 

“É uma dificuldade muito grande conseguir pensar a mitigação e adaptação climática no estado do Acre de maneira intersetorial. As comunidades se adaptam da forma com que conseguem”, defendeu. 

O Observatório, em parceria com tecnologias de monitoramento por satélite, acompanha os impactos ambientais, especialmente relacionados ao desmatamento e às queimadas. Daniela enfatiza que é necessário integrar políticas de meio ambiente, saúde e desenvolvimento sustentável. 

“Não dá mais para separar política ambiental de política de saúde. Diante da crise climática, essa abordagem fragmentada se torna cara e ineficiente. Precisamos pensar políticas públicas considerando todos os impactos”, afirmou. 

Para ela, o Estado deveria criar um plano de adaptação permanente para o enfrentar crises ambientais, em vez de ações emergenciais apenas em períodos extremos, como seca ou enchentes. 

“Precisamos de iniciativas planejadas e articuladas. Trabalhar apenas em cenários de emergência é caro, ineficiente e atrasado”, reforçou. 

Diante do agravamento da crise ambiental, o governo do Acre decretou, em 20 de agosto, situação de emergência em Saúde Pública. Em junho, o Estado já havia declarado Emergência Ambiental em todos os 22 municípios acreanos. 

Como parte das medidas para reduzir os focos de calor e minimizar a poluição, a Secretaria do Meio Ambiente (Sema) lançou um edital para a contratação de 50 brigadistas para atuar nas Unidades de Conservação (UC). 

Queimadas intensas 

Rio Branco registrou cerca de 439 focos de incêndio – Foto: Neto Lucena/ Secom

Em outubro do último ano, o estado do Acre recebeu mais de R$ 10,9 milhões do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, para combater queimadas e mitigar os efeitos da estiagem que assolou a região. 

De acordo com o Cigma, entre janeiro a setembro, o estado registrou cerca de 6.592 focos de incêndio, sendo 3.855 apenas no mês de setembro. Em Rio Branco, foram contabilizados 439 focos. O município de Feijó liderou o ranking dos focos das queimadas, com aproximadamente 1.478 ocorrências. Diante desse cenário crítico, dez homens da Força Nacional foram autorizados a atuar por 90 dias no combate aos incêndios na cidade. 

Homens da Força Nacional atuam no combate aos incêndios no Acre – Foto: Ascom/Sejusp

Outros municípios foram gravemente afetados, incluindo Tarauacá (939 focos), Cruzeiro do Sul (610), Rio Branco (439), Manoel Urbano (420) e Sena Madureira (400). As demais 16 cidades registraram entre 244 (Marechal Thaumaturgo) e 18 (Plácido de Castro) focos de incêndio. 

Diante da gravidade da situação, uma audiência pública fora realizada na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), para discutir a seca extrema. Cassia Souza de Melo, representante da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semeia), destacou que aproximadamente 6.500 árvores foram plantadas para recuperar áreas de preservação permanente. 

“Mesmo sendo parte da Amazônia Ocidental, Rio Branco é a quarta cidade menos arborizada do Brasil. Temos trabalhado na recuperação dessas áreas e na regularização fundiária para combater o desmatamento em áreas ocupadas ilegalmente”, afirmou Cassia ao portal de notícias Diário Expresso. 

O Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) coordena suas ações por meio da Casa Civil, realizando reuniões semanais na Sala de Situação com os demais órgãos do Comando e Controle Ambiental. A partir dessas reuniões, o Cigma encaminha alertas de desmatamento e queimadas à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que repassa as informações ao Imac. A Divisão de Controle Ambiental, por sua vez, une esses dados e denúncias para direcionar as operações em campo. 

As denúncias sobre crimes ambientais podem ser feitas pelos seguintes canais: 

  • Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) – (68) 99256-8047 (Whatsapp);  
  • Corpo de Bombeiros do Estado do Acre (CBMAC) – 193;  
  • Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – 0800-618080;  

Polícia Militar do Estado do Acre – 190. 

Embora não atue diretamente no combate a queimadas, Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA) tem investido na capacitação de seus militares e na aquisição de recursos tecnológicos e logísticos. O comandante do BPA, Capitão Randson, explicou que a unidade fiscaliza ilícitos ambientais em todo o estado, atuando preventivamente e repressivamente. 

“Os crimes ambientais geralmente ocorrem em regiões remotas, o que dificulta a fiscalização. No entanto, intensificamos as operações durante o período seco para coibir essas práticas ilegais”, afirmou. 

Para reforçar as medidas preventivas, a Sema lançou a Operação Contenção Verde, que monitora alertas de desmatamento e focos de calor, além do Plano Estadual de Prevenção e Controle de Desmatamento e Queimadas (PPCDQ), garantindo a fiscalização mais precisa e eficaz. 

Em Rio Branco, a Defesa Civil Municipal, coordenada pelo Tenente-Coronel Cláudio Falcão, intensifica suas ações para minimizar os impactos ambientais, especialmente no período de seca. A mobilização começa em abril, com campanhas educativas, limpeza de terrenos baldios e fiscalização ambiental. O trabalho conta com a colaboração de diversas secretarias municipais, como a Secretaria de Cuidados com as Cidades (SMCCI), a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (Seinfra) e a Secretaria de Meio Ambiente (Semeia). Além disso, o setor de saúde também se prepara para atender a população afetada. 

“Temos áreas mapeadas em vermelho como de alto risco de queimadas, e trabalhamos para minimizar os impactos ambientais. No período de seca, nossas ações são redobradas”, destacou Falcão. Ele ressaltou que a prevenção e o mapeamento de áreas de risco são desafios centrais, especialmente nas zonas urbanas. “Infelizmente, a contenção é muito difícil. Precisamos do apoio do Corpo de Bombeiros e das secretarias de obras para agir nas áreas afetadas por deslizamentos ou desmatamentos”, concluiu. 

O promotor de Justiça de Meio Ambiente do Ministério Público do Acre (MPAC), Dr. Alekine Lopes, explicou que o órgão ajuíza ações penais contra o desmatamento ilegal na região do Baixo Acre, que inclui os municípios de Acrelândia, Bujari, Capixaba, Plácido de Castro, Porto Acre, Senador Guiomard e Rio Branco. 

“Quando chega a notícia de desmate ilegal ou outro crime ambiental, a gente ajuíza as ações e de acordo com o que é previsto na lei, nós responsabilizamos as pessoas. Na maioria das vezes, a pena é branda, os infratores recebem penas alternativas, como pagamento de multas ou prestação de serviços comunitários”, explicou Dr. Alekine Lopes. 

Brasil tem o compromisso de reflorestar 16 milhões de hectares até 2030 – Foto: Edson Fernandes/Secom

 

 

Lopes lembrou que o Brasil tem o compromisso de reflorestar 16 milhões de hectares até 2030, incluindo o Acre nesse plano. Ele ressaltou que a preservação ambiental não precisa prejudicar a economia. “Uma economia saudável e um meio ambiente equilibrado são duas faces da mesma moeda”, disse. 

Como solução sustentável, o promotor propôs transformar terrenos baldios em hortas urbanas. “Em vez de locais propensos a queimadas e proliferação de mosquitos, poderíamos utilizá-los para produção de alimentos sem agrotóxicos, beneficiando a população”, finalizou. 

 

Seca extrema x enchentes históricas 

Durante quase cem dias, o rio permaneceu abaixo dos 2 metros – Foto: Odair Leal/Sesacre

Em paralelo a esses acontecimentos, o Rio Acre resiste diante aos extremos climáticos que desafiam a população acreana nos últimos anos. Há cinco meses, o rio registrou a pior seca da história, alcançando a menor cota dos últimos anos: 1,25 metro, igualando-se à menor cota já registrada, em outubro de 2022. 

Durante quase cem dias, o rio permaneceu abaixo dos 2 metros, comprometendo o abastecimento de água na cidade e secando açudes, poços artesianos e igarapés. Para amenizar a crise, caminhões-pipa distribuíram cerca de 300 litros de água diários para 35 mil pessoas, além das 19 caixas d’água instaladas em pontos estratégicos pela Defesa Civil Municipal. 

Morador há mais de 30 anos do bairro Raimundo Melo, parte alta da cidade, Manoel de Oliveira Andrade, aposentado, relatou que, durante a estiagem e a falta de abastecimento, seu poço apresentava nível baixo, mas nunca chegou a secar. 

 

“Somos em oito pessoas, e nesse período a água fica escassa, então economizamos. Para beber e cozinhar, compramos água mineral”, disse Manoel. 

Ele também destacou que, atualmente, ter água em casa é um privilégio, pois muitos ainda enfrentam desabastecimento, como ocorre no seu próprio bairro, onde algumas casas chegam a ficar até quatro dias sem água. 

“No bairro, a água não cai todos os dias, principalmente nas ruas da parte alta. Não sei se é por causa da altitude, mas tem essa dificuldade. No nosso caso, não chegamos a ficar totalmente sem água, mas em alguns vizinhos sim”, afirmou. 

Em contraste com a seca, em março deste ano, o Rio Acre atingiu seu nível mais alto do ano, com uma cheia alarmante de 15,88 metros, ultrapassando a cota de transbordo e forçando o deslocamento de milhares de famílias. Somente na capital Rio Branco, mais de 25 mil famílias foram afetadas, e cerca de 700 pessoas buscaram abrigo, principalmente no Parque de Exposições Wildy Viana. 

Rio Acre atingiu seu nível mais alto do ano, com uma cheia alarmante de 15,88 metros – Foto: Pedro Devani/Secom

Thomé Silva, que vive há 28 anos e trabalha em sua barbearia na Baixada da Habitasa, Cadeia Velha, no centro de Rio Branco, enfrenta alagamentos anuais que obrigam moradores a deixarem suas casas. Em 2015, o nível das águas ameaçou entrar em sua casa, levando-o a construir uma residência elevada para minimizar os impactos das enchentes. Em 2024, sua barbearia ficou submersa, com apenas o telhado visível, mas sua estratégia de prevenção funcionou. 

Enchente do Rio Acre atinge bairro Cadeia Velha – Foto: Cedida.

“Esse ano, a água entrou na Barbearia, mas saiu rápido. Ficou fechada apenas por uma semana”, relatou Thomé, que sempre retira seus utensílios de trabalho da Barbearia, levando para um local seguro. Durante esse período, a canoa é o seu único meio de transporte. 

Diante das chuvas intensas do “inverno amazônico” — de dezembro a junho — em que o volume das chuvas ocasiona a cheia dos rios, o Tenente-Coronel Cláudio Falcão informou que fevereiro e março superaram as previsões de precipitação e que há possibilidade de chuvas até a segunda quinzena de abril. 

“Ainda teremos previsão de chuva praticamente para todos os dias, mesmo que em volumes pequenos. Só teremos um alívio e uma segurança melhor a partir da segunda quinzena de abril”, explicou. 

Com a intensificação das chuvas, a vice-governadora do estado, Mailza Assis, decretou estado de alerta devido as previsões e números críticos nos últimos dias. 

“[…] os prognósticos de previsão climática apontam que o trimestre fevereiro-março-abril/2025 apresenta condições favoráveis para a ocorrência de precipitação de chuvas acima da média em todo o estado e que essa condição meteorológica de padrões pluviométricos elevados resulta em potencial e significativo aumento nos níveis dos rios em um curto espaço de tempo, com grande probabilidade de ocorrência de inundações e acarretamento de prejuízos sociais e econômicos consideráveis para a população”, diz um trecho do documento. 

Em fevereiro de 2024, o Rio Acre alcançou a marca de 17 metros, apenas em Rio Branco, deixando mais de 1,8 mil pessoas desabrigadas, registrando a maior cheia da história. Das 22 cidades acreanas, 17 declararam situação de emergência devido ao transbordamento de rios e igarapés. Ao menos, 20.182 pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas, incluindo 23 comunidades indígenas afetadas no interior do Acre. 

O município de Brasiléia, a 230 km da capital, foi a mais atingida, com 80% da cidade inundada, deixando quase 4 mil pessoas desabrigadas. O rio na região atingiu 15,56 metros, tornando-se a maior enchente histórica da cidade.  

O decreto estadual de emergência abrangeu as cidades de Assis Brasil, Capixaba, Cruzeiro do Sul, Epitaciolândia, Feijó, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Plácido de Castro, Porto Acre, Porto Walter, Santa Rosa do Purus, Sena Madureira, Tarauacá, Xapuri e Rio Branco. 

Para enfrentar os desafios da atualidade e prover melhorias na qualidade de vida da população acreana, está previsto que o estado receba, neste ano, aproximadamente R$ 12,1 bilhões em recursos, por meio do projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA). Desse montante, R$ 278 milhões serão destinados a iniciativas na área de assistência social e ações voltadas à resposta às mudanças climáticas. 

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