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Caso Yara: Quando facções criminosas querem fazer as regras

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Foto: Reprodução

A segurança pública é um pilar essencial de qualquer sociedade. Quando facções criminosas tentam impor um “estado paralelo”, não ameaçam apenas a tranquilidade das famílias, mas também comprometem o desenvolvimento econômico, a qualidade de vida e o próprio futuro de uma cidade. Em Rio Branco, essa realidade desafia as forças de segurança e exige uma resposta que vá além do combate direto ao crime: é preciso envolver toda a sociedade na busca por soluções.

O recente assassinato de Yara Paulino da Silva, de 27 anos, escancarou essa ameaça. Yara foi brutalmente linchada em via pública após ser acusada, sem provas, de ter matado a própria filha de dois meses. Dias depois, a Polícia Civil confirmou que a ossada encontrada, que motivou o linchamento, era, na verdade, de um cachorro.

O caso evidencia a atuação preocupante das facções criminosas, que instauram “tribunais do crime” e assumem o papel de juiz e executor, sem qualquer respeito aos direitos fundamentais. A disseminação de boatos e a justiça pelas próprias mãos resultam em tragédias como a de Yara. Mas o avanço dessas facções não acontece por acaso.

Diversos fatores contribuem para o crescimento do crime organizado: vulnerabilidade social, leis brandas, um sistema prisional fragilizado e a degradação dos valores morais e coletivos. No Acre, a proximidade com o Peru e a Bolívia, grandes produtores de drogas, torna a região ainda mais suscetível.

Diante disso, é preciso entender que segurança pública não é uma responsabilidade exclusiva da polícia. O enfrentamento ao crime exige ações coordenadas entre o poder público, a Justiça e a sociedade. A pergunta que fica é: como podemos, juntos, construir um ambiente mais seguro?

Nos últimos anos, a disputa entre facções transformou a rotina das comunidades periféricas em todo o país. Moradores vivem sob regras impostas pelo crime, o medo impede denúncias e o tráfico de drogas financia um ciclo de violência que atinge a todos. Muitos jovens, sem perspectivas, tornam-se alvos fáceis do recrutamento criminoso.

No Segundo Distrito de Rio Branco, palco da tragédia de Yara, essa dinâmica é evidente. As facções não se limitam a disputas entre si: ao dominar um bairro, exploram economicamente a população, impondo taxas a comerciantes e moradores. Esse esquema fortalece o crime e cria uma relação de dependência, fazendo com que a facção pareça mais presente que o próprio Estado.

Esse jogo se torna ainda mais complexo. Com a disputa territorial vem os ataques entre rivais, homicídios por vingança e as estratégias para driblar a polícia. Facções geram falsas ocorrências para desviar o efetivo policial, criam tumultos em um ponto da cidade para aliviar a pressão sobre seus líderes em outro. O crime organizado se adaptou às táticas policiais, e não há ingenuidade em suas ações: cada passo é calculado.

Talvez o maior impacto desse domínio seja o aprisionamento das comunidades. Em Rio Branco, onde praticamente todos se conhecem, ser expulso de um bairro significa perder referências, vínculos familiares e apoio. Muitos aceitam as regras do crime para manter o pouco que têm: um lar, um emprego, um espaço para criar os filhos. O medo, muitas vezes silencioso, impede denúncias e reforça o ciclo de opressão, tornando o crime uma alternativa aceitável para jovens sem perspectiva.

Além da violência, o crime organizado manipula narrativas. Quando uma facção distribui brinquedos no Dia das Crianças ou “resolve” conflitos sem a interferência da polícia, mina a credibilidade do Estado. Ao se apresentar como solução onde o poder público parece ausente, reforça a ideia de que a “lei do crime” é mais eficiente, fortalecendo seu domínio.

O combate ao crime organizado não pode se restringir ao enfrentamento armado, o que já é feito de forma exaustiva. É preciso atacar suas bases financeiras, endurecer leis e, principalmente, impedir que as facções se tornem a única referência para comunidades que se sentem abandonadas. O que acontece na capital Rio Branco reflete um fenômeno global, e só uma resposta estratégica e contínua pode mudar esse cenário.

A polícia tem enfrentado essa batalha em várias frentes, mas não pode lutar sozinha. O enfrentamento ao crime organizado é uma causa que deve ser abraçada por toda a sociedade.

É fundamental que todos, em suas cadeiras e gabinetes, reflitam: dentro das minhas atribuições, como posso contribuir para mudar essa realidade? Enquanto houver conivência, medo e omissão, as facções continuarão a crescer e muitas Yaras continuarão a ser brutalmente assassinadas. A escolha está em nossas mãos: vamos mesmo conviver com um estado paralelo?

 

Por Joabes Guedes.

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